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domingo, 26 de fevereiro de 2012

Cronica de um intestino escroto

Hoje eu tive um acesso de dor-de-barriga. Desses que todos, vez ou outra, tem, nos piores lugares. Penso que nosso intestino é um grande filho da mãe, no pior sentido da expressão. Estava em casa durante toda a manhã, mas o meu intestino quis esperar até às 7:40, só pra me pregar uma peça. Cheguei a entrar e sair do banheiro umas quatro vezes. O local era o típico mictório de faculdade: extremamente entupido. Usava o subterfúgio narcisista do espelho. Fingia estar dando um jeito na barba, inventava um fio desarrumado no cabelo... A cena era hilária: um perfeito perfeccionista de sua aparência - com embrulhos audíveis na região abdominal - de camiseta, bermuda e sandálias destas de borracha.

Fiquei na escolta da porta do banheiro por quinze minutos, que demoraram duas horas para passar, aproximadamente. A essa altura, eu ja suava horrores.
Quando o ruído da minha barriga evoluíra para um barulho quase ensurdecedor, eu resolví que era a hora exata de tentar mais uma investia rumo à privada. Neste momento, a bondosa servente, mulher trabalhadora, resolve interditar o acesso ao meu desejado objetivo. "Filha da puta!!!", pensei no momento. Resultado? Tive que esperar mais uns dois dias (cinco minutos), já visivelmente desesperado e com ódio à coitada da zeladora estampado nos olhos, para poder, enfim, descarregar os resíduos mortais que me atormentavam.

Depois de uma espera petrificante, vejo que a moça sai do banheiro masculino afim de continuar seu trabalho ao lado, no feminino. Como ela fechara ambos os banheiros, afim de realizar seu trabalho, o momento me pareceu perfeito. Pobre de mim, iludido. Esqueci que a perfeição não existe.
Adentrei o ambiente vazio. "É agora!". Sem pestanejar, sentei-me no vaso, tranquilo, deixando o local completamente fétido, diga-se de passagem, o que era completamente compreensível.

Foi aí que deu-se a bagaceira: alguma turma de algum curso acabara de ser liberada. Neste exato momento, a servente, bondosa como uma santa, desobstruiu a entrada dos sanitários. Foi uma invasão desenfreada de jovens barulhentos, enlouquecidos... e eu naquele cubículo fedorento e em total estado de pânico. Minha respiração, meus batimentos cardíacos, tudo cessou por alguns minutos menos... o barulho das malditas flatulências fedidas, as quais eu não tinha a menor condição de segurar.
E um silêncio constrangedor tomou conta do recinto, seguido de perto por uma crise de riso generalizada. Por parte deles, é claro. Da minha parte, apenas berravam os flatos, seguidos de quilos (ou litros?) de merda muito malfeita, vale ressaltar. O meu alívio só veio quando o silêncio voltou a reinar no local.

Resolvi sair rápido do maldito cubículo. Pelo menos, papel-higiênico tinha. Voei para o lado de fora, aonde pude notar que outro grupo - ou seria o mesmo? - se dirigia ao meu encontro.
E novamente lá estava eu, utilizando o espelho como desculpa, fingindo olhar as falhas da minha barba. "Dei descarga? Ah, pouco importa... eu vou pro inferno, mas nao volto lá dentro.".

terça-feira, 8 de junho de 2010

Carta de Adeus ao mundo

OBS: EU LIRICO EXISTE...

Eu não consigo mais escrever. Fico sentado, diante dessa brancura, que de tão ofuscante me arde os olhos, e simplesmente me doem as palavras. Fico aqui, tentando espremer o cérebro, tal qual se espreme uma camisa encharcada, mas não gotejam mais falácias... O cesto de papel recebe incessantes visitas de bolas amassadas com raiva, e o cinzeiro... bom, este está quase invisível, perante a montanha de filtros enegrecidos pelo alcatrão...

Eu não consigo mais falar. Gritar, esbravejar, urrar as dores deste mundo cego, que cada vez mais fraqueja, sem voz para gritar aos surdos... A minha garganta se fecha, como se fecham as portas do sempre crescente individualismo retórico e obrigatório destes amargos muros, que aludem aos meus olhos. Eu já não consigo mais enxergar... E aqui jaz até o frio escuro dessa solidão fúnebre. Eu já não consigo mais sentir...

Eu já não posso mais olhar. Ter as unhas cravadas na pele da culpa que me leva como cavalo manso, num cabresto apertado. Culpa, que me sequestra a fome que nunca senti, e a empresta a alguém, que de tão próximo, se torna até comum. Eu já não tenho compreensão...

Dolorosa compreensão de que a ignorância nos faz felizes. Dolorosa compreensão de que a liberdade é cada vez mais utópica, e que a escravidão é eterna... Dolorosa, é a compreensão de que lhe ditam burocracias estúpidas a ponto de te fazer cada vez mais refém, e cada vez mais culpado por se tornar refém...

Doloroso, é se sentir mal em querer ser diferente. É ter, estigmatizado em sua carga, o conceito de rebelde sem causa, como se a causa real fosse se tornar tão escravo quanto se tornaram aqueles que nos cercam. Doloroso, é ver deturpar-se todo e qualquer conceito, em prol de um outro conceito que é escravista e desumano; que é concentrativo e exclusivo, que futiliza todos os demais conceitos em torno de sí, e de seu acúmulo cada vez mais doentio...

Doloroso é esperar que a morte traga a esperada redenção que essa vida não foi competente em trazer. É sentir morrer minha criatividade, pois a criação sem lucro já não é mais válida... Pior! É sentir que tenho preferido que esvaia-se a criação, pois não quero que ela perca seu sentido se tornando mais um produto podre desse mundo que gira em torno de um senhor cada vez mais destrutivo...

E dói tanto saber que é tão fútil o motivo de tamanha destruição, dói tanto perceber que sou cúmplice disso, pelo simples fato de caminhar por esse chão, que eu simplesmente não consigo mais escrever...

O amor ganhou uma data. As mães, os pais, os avós, as crianças, e tantas outras coisas mais, que o capitalismo te agradece por ser tão cego.

É aqui que peço emprestada a lâmina fria, que logo se esquentará com o sangue de meus pulsos, sedentos pela libertação da carne, frágil. Me despeço com um grande Adeus.

(Quisera eu ter essa coragem, mas ela também já me falta)...

terça-feira, 4 de maio de 2010

Dedicado a Faustão (a prosa)

Como assim, existe ainda quem fale mal? Existe, no Brasil, algo que mova tanto as massas, depois do futebol? Existe alguém que tire tanta gente da provável prostituição? Existe alguém que mostre mais da legítima cultura brasileira?

Eu não creio que ninguém compreenda a genialidade Faustanica. Por este motivo, ninguém entende o por que deste programa magnífico estar no ar ha mais de vinte anos! Qual o outro gênio, na história do mundo, ganhou tantos milhões pra emburrecer a massa? Talvez os artistas da novissima musica baiana, mas eu duvido que eles tenham algum nível de instrução para tal. São anos e anos de dinheiro fácil, coisa que todos nos queremos e não conseguimos. Simples: Vendam-se aos interesses de uma máquina de manutenção da ignorância, e compreendam.

Sem falar no serviço social que o programa presta! Imaginem aqueles pedaços de carnes suculentas que se balançam de um lado pro outro, naquelas coreografias idênticas - é proibido mudar, pedaços de carne nao pensam! - no palco das dançarinas, se não fosse o Domingão? Imaginem o aumento considerável de 'acompanhantes' no mercado de trabalho? Desvalorizaria o produto, e traria crise aos cafetões que teriam que se tornar policiais de fato...

O que seria da política brasileira, se não fosse o Faustonismo emburrecendo o povo? O que seria dos músicos, que teriam de ser realmente bons? O que aconteceria com a própria rede que ambienta o programa, que teria que criar mesmo programas que suscitassem a inteligência e perder programas como o BBB, bem como a mina de ouro que a ignorancia produz? O que seria da política externa, tendo que aguentar milhões de brasileiros produzindo com inteligência?

Como é que seriam feitas as entrevistas, com as pessoas realmente terminando suas frases, sem serem interrompidas a todo o momento? As celebridades teriam de pensar de verdade para responderem as coisas? Não sei quanto a vocês, mas a imagem de meia duzia dessas celebridades de hoje (mais uma vez, a rede televisiva contra a prostituição!) tendo que realmente pensar em algo pra dizer me dá arrepios...

O que seria de Chico Buarque? De Vinicius de Moraes, da Tropicália; se tivessem publico brasileiro a altura... O que seria das artes, da cultura, da poesia?!

Graças a Ele, nunca vamos saber.

Morrer é bom!

Desde pequeno, me foi ensinado a temer a morte. Talvez não com a certeza expressa das palavras "tema a morte". Mas todo o tabu, toda a proibição em falar no assunto - falar em 'coisa ruim' atrai 'coisa ruim' -, todo o pânico que as pessoas sentem em tocar no assunto "morte" geram esse campo de negativismo acerca da coisa mais natural do mundo.

O que ninguém tem coragem de dizer é: Morrer é bom demais. Fora toda a teoria teóloga acerca da coisa, bater a caçuleta é uma coisa que sempre gera tudo o que você buscou em vida. Primeiro que, todo mundo que morre, era 'uma pessoa maravilhosa" que "sempre fazia todo mundo rir" e que "sempre estava disposto a adoçar o dia com um sorriso". Balela. A verdade é que ninguém tem coragem de dizer "já foi tarde, aquela miséria". A verdade, é que desde que eu me entendo por gente, as pessoas me diziam 'não se fala mal de um morto'. Como se o morto fosse alguém inatingível, como se a morte imaculasse o santo nome de qualquer filho da puta que morreu.

Outra coisa: morrer traz dinheiro. É a maior escrotidão da vida! Van Gogh morreu pobre, mas hoje, alguma honrada tataraneta - a qual não teve que ter o prazer (ou desprazer) de conhece-lo goza de sua fortuna póstuma. E hoje, depois de morto, aquela cena fatídica dele ter 'cortado a orelha' se tornou um fato contemplativo de sua existência. Ah, santa paciencia... o cara era pirado e cortou a orelha. Pronto, "morreu".

Morrer faz bem até pra pedófilo! De repente, o alienígena terráqueo M.J foi perdoado por todos os pequenos cus que ele adentrou. Até o pequenino - que todos so conhecem como pequenino, pois o mundo das drogas (ou das putas, o que da no mesmo) o tomou pra si -, veio dizer 'esqueceram de mim! o alien da terra não retirou as minhas pregas anais... ele está perdoado, receba-o Senhor - mas esconda os querubins, só por via das duvidas...' (Esfrega as mãos, bate-as na cara e grita AAAAAAAAAAAAHHHHH).

Morrer é bom! Acreditem... De repente, todos te perdoam por suas falhas, você emagrece - olha ai os anorexicos! -, não tem mais que trabalhar, nem que dar satisfações a ninguém, você é perdoado de suas falhas mundanas, os mais proximos tem obrigatoriamente que chorar sua partida...

A morte trouxe o perdão até pra ACM! Nãããão, ai é demais até para a imaculada morte.


NOTA: Gostaria que todos soubessem que eu nao tenho nada contra os citados. Por mim, todos eles descansarão em paz, eternamente no quinto dos infernos.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Dormir é pros fracos (?)

De todas as coisas que sou, a unica que eu não queria ser era insone. Não me afogo em mágoas por ser nada do que sou, mesmo que algo em mim me incomode - e/ou à outrem - vez ou outra. A coisa mais chata, todavia, é não conseguir pregar os olhos pelas já míseras oito horas de sono pre-estabelecidas pelo sistema - seja lá qual é o seja, não faço idéia. Como todo pedaço de desgraça da vida, porém, tem-se lá o lado menos ruim da coisa; praticamente todos os dias o nascer do sol me arranca metade do mal humor que a insônia me empresta.

Posso até dizer, com toda a franqueza que deus me deu por defeito, que se o nascer do sol não fosse algo tão sublimemente perfeito, eu já teria longa ficha policial por homicídios. Mas como dizem que o tal do deus "escreve certo por linhas tortas", o Sol nasce e me arranca um sorriso que me faz pensar: é... até que não dormir tem lá suas vantagens. Mas esse sorriso some em pouquíssimas horas, quando eu tenho que enfrentar um ônibus, ou um engarrafamento, ou um bom dia de um vizinho... É mais forte que eu! Quando eu vejo o filho da puta no elevador, com aquela barba bem feita, e aquela cara de proveito das oito horas malditas, as quais eu fiquei olhando as sombras do teto, ou passando os canais da tv (é incrível a progamação da madrugada!), ou fazendo lá qualquer porra na esperança de que o sono me tome com a mesma fúria que o Marques de Sade tomava seus parceiros, eu fico puto!

Bom dia... Bom dia é uma formalidade, uma mera frase que se diz, só pra dizer que a sua mãe te deu educação... Pois eu não desejo bom dia de volta. Pode ser por birra, por inveja, ou por mera vontade de demonstrar todo o meu ódio contra aquela falação matutina. Uma das coisas mais constragedoras que existe é elevador. E o elevador do meu prédio seria responsável por mais de noventa porcento dos homicídios que eu praticaria, não fosse o nascer do sol. Pode-se dizer que o astro-rei já salvou inúmeras vidas que me cercam de formalidades imbecis, principalmente no elevador do meu prédio.

Mas é a tal da providencia divina. Quem sabe se eu fosse um ser dorminte, eu me tornasse menos sagaz, e mais descansado? O cansaço, as vezes, tem propriedades de busca incessante... Isso por que, aquele que dorme é descansado e descansado se mantém frente a tudo.

E é por isso que eu digo: Dormir é pra os fracos! (Ou quiçá procure eu uma falatoria retórica que explique, mesmo que só a mim mesmo, a minha falta de sono).

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Aleatorismo

Outro dia acordei cantarolando. O sol brilhava mais forte, mas isso não incomodava meu astigmatismo - ou minha hipermetropia. Engraçado... alguns meses atras,eu acordaria e violentaria verbalmente toda aquela luminescencia desnecessária. Fora o acesso de cólera contra o calor estúpido, que beirava o inferno em temperatura... Mas não. Acordei cantarolando e, após compreender o fato, ri de mim mesmo. E o melhor, não me senti inferior por ser risível...

Incrivel a demonstração de força do afeto. A transfiguração da pedra, do amargo, da insensível falta de tato, em uma rosa doce e aveludada. Nada mais de obscuro, nada mais avermelhadamente calorento - a não ser uma específica fusão de corpos. Nada mais incômodo ou aversivo... Nada mais desesperadamente subversivo, acabaram os rompantes de violência, os suicidios homeopáticos (em parte), a fugacidade frágil do embreagado orgasmo completamente livre de sensibilidades...

Ri, por que percebi que foi a presença de outrem que me despertou isso. Poderia ter giló com quiabo pro almoço, que cada garfada seria degustada com a ânsia da ultima refeição de um condenado. Não cantarolei mais, por julgar que seria forçoso. Seria apenas para manter o contínuo ritmo da canção, outrora interrompida pelo auto-riso. Mas o riso? Esse sim me perseguiu o dia inteiro. "Filho da puta" - pensei. "Devo tá com a maior cara de sacana apaixonado."

E ai constatei uma coisa interessante. Se escarras, será execrado. Mas se sorri, não importa sua índole, todos te darão bons créditos. E isso gera um ciclo de felicidade que chega a ser cansativo. Digo isso pelo repentino mal humor que acabo sentindo uma hora ou outra do dia. E ai, o cantarolar de logo cedo, logo se transforma num considerável número de resmungos sobre nada.

Será que seria melhor continuar a canção? Quiçá fizesse, esta continuidade, desaparecer o resmungar. Mas pensando bem, quase sempre o mal humor me recorda a benção da indiferença. Com a memória restaurada, indifiro-me a mim mesmo, e o riso retorna. E como uma memória tende a puxar outra, logo me recordo do dádivo sorriso de logo cedo.

Mas ai já são seis da tarde, e outras percepções me invadem, e ai, o sorriso ja é culpa sua...

quinta-feira, 30 de julho de 2009

O vilão

Entramos em campo. As torcidas estão enlouquecidamente assustadoras - ou assustadoramente enlouquecidas, a ordem aqui não altera muita coisa. É muito difícil adentrar um recinto aonde, digamos por alto, cinquenta, sessenta mil pessoas estão contra você.
Mas assim se faz. Apito. O futebol, embora não seja de entendimento geral, é muito mais que apenas um jogo. Uma porrada de sentimentos envolvem aqueles noventa minutos, que podem ser sorríveis, choráveis, sofríveis, desesperadores, explosivos... Isso, se tratando das torcidas e dos jogadores, claro... Para nós, arbitros, a coisa não é bem assim.

Nós somos, provavelmente, a classe mais julgada do mundo. Passamos de um mero juiz, ao pior filho da puta em questão de dois apitos. Não precisa muito... Uma faltinha boba, no meio de campo. Um momento de hesitação me impede de assoprar o maldito apito, e, num contra-ataque fulminante, o time visitante abre o placar. Pronto... Agora aquela torcida que dava um show magnífico me lança olhares de ódio... E isso é só o início da coisa. O atacante do time da casa faz um gol irregular. Anulo. É o que basta para que aqueles seres humanos se metamorfem em milhares de babuínos raivosos, babando de cólera, e desejando que algum objeto imenso - de comprimento e de largura - se alojasse em minha cavidade anal.

Não importa. Somos vilões de qualquer forma. Qualquer que seja o resultado final, alguém vai sair desejanto que eu tenha uma morte lenta e dolorosa, que invejaria o criador do filme "Jogos Mortais", de preferência com todos os requintes de crueldade possíveis... E isso não é tudo! A coitada da minha mae, que ja sofreu tanto na vida, deixa de ser uma santa senhora, viúva ha doze anos, que desconhece o real sentido da palavra 'foder', e passa a ser uma prostituta daquelas mais sujas, fétidas e baratas que existem.

No lance que segue ao gol anulado, o zagueiro do time da casa faz um penalti clarissimo... Pego o apito mas, zelando pela minha integridade física - e a integridade moral do imaculado nome da senhora minha mãe - eu deixo o lance seguir, fazendo vista grossa à tentativa de homicídio do zagueiro contra o atacante rival. Foi a pior merda que eu poderia ter feito. Aquela pequena parcela do campo, que ainda não tinha derramado seu ódio, passa a querer a minha cabeça também. Imaginem a carnificina que seria, se não fosse a tropa de Choque ali presente? De um lado, babuínos enfurecidos raivosos, do outro gorilas assassinos. E eu, um pobre diabo mirrado, que quase não tem forças pra aguentar a correria sutil dos noventa minutos, na mão destas criaturas, dentre as quais, o mais bonzinho já matou até a mãe.

O que um juiz de futebol pode fazer? Nossa sina é ficar preso entre o medo de sermos esquartejados na mão grande e a responsabilidade de apitar o jogo sem falhas. Olho para o relógio. Noventa minutos cravados! "Quanto de acréscimo?" - penso. Olho em volta, e o coro da torcida deixa de ter um caráter incentivador para com suas equipes, e passaram a ser gritos de guerra aonde, na melhor das hipóteses, minha mãe virou uma padilha da vida, minha esposa dorme com o bandeirinha, mas eu, claro, não ligo pois, obviamente, eu sou homossexual...

"Acrescimo é o caralho". Apito e termino com meu calvário.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Uma cronica, pra distrair...

São exatamente 20:57. Eu quero escrever, mas não sei bem sobre o que...

Não sei se a minha massa encefálica está preparada para começar alguma coisa assim, do zero, do nada, do branco... Sem um mínimo de direcionamento. Eu fico aqui encarando todo esse espaço vazio à minha frente, e isso até que me assusta um pouco. Nossa, que mundos não caberiam aqui? Quantos e quantos mundos poderiam ser criados, aqui, comigo sentado na minha cadeira, diante dessa imensidão esbranquiçada... Sem o menor esforço! Sem ter que recorrer a nenhum 'big-bang', sem ter de lidar com pecados originais, com protestos, com revoltas... sem ter ao menos que levantar a minha bunda dessa cadeira que aqui me conforta.

O mundo, eu crio em sua cabeça. Mesmo que eu nunca tenha te visto na minha vida... Mesmo que eu desconheça qualquer sentido de bagagem teórica, teóloga, fisico-quimica, literal ou pessoal sua; mesmo que eu desconheça - ou até discorde - da sua orientação politica, sexual, socio-econômica... o mundo que eu crio só toma vida em sua mente. Talvez eu possa fazer existir um exemplo, afim de que seja compreendida toda essa falácia:

Eis que surge o ônibus, ao fim da rua... O sol esquentava meus miolos, e eu me apresso em fazer o sinal para que o motorista viesse ao meu encontro. Aos poucos, eu vou notando que o veículo não diminui a velocidade ao se aproximar, e, em pouquissimos segundos, estou olhando para a parte trazeira do local onde eu deveria estar - o ônibus.

Para muitos, aquele era um motivo para se agradecer a Deus. Quem sabe o que aconteceria se eu tivesse embarcado? E se um acidente acontecesse? E se eu fosse assaltado?... Para outros, aquela era só uma fatalidade da vida. Outro carro viria, não era necessário perder a paciência...

Para mim, o motorista era um bom de um filho da puta, isso sim. Me deixou aqui, com fome, com calor, completamente estressado, por que não tenho um carro, e, pra ser sincero, com uma raiva estrondosa do sistema de transportes da minha cidade.

O sol vai ficando mais forte, e eu continuo fulo da minha vida... Mais de meia hora se seguem, e eu me prometo dizer poucas e boas pro proximo motorista que vier... O negócio, é que meu humor não se refaz com certa facilidade... poucos segundos depois, uma garota fala do meu lado:

- Nossa, muita sacanagem do 'motô' - encurtamento para 'motorista', em Salvador - não ter parado.

- É... - Minha complexa resposta...

- Você tá puto, hein?

- Que nada. Eu adoro quando me fazem de otário - Sorrio.

Geralmente é ai que se acaba a conversa. O meu jeito de falar, e a minha cara de 'poucos amigos', tem o poder de afastar as pessoas de qualquer tentativa de contato social iminente. Para minha surpresa, porém, a menina se apresentou, e continuou a conversa...

- Fulana-de-tal, prazer - Estou com preguiça de inventar um nome.

Aceno com a cabeça.

- Essa é a hora em que você me diz o seu...

Falo. Assim, seco. Vocês devem estar pensando o que se passa em minha mente, para que eu não demonstre qualquer tipo de afetividade para com a garota. Não, ela não era feia. Não era nenhuma deusa grega, mas.. Não era feia. Não exalava odores pútrefos - nem dos sovacos nem da boca -, não vestia uma camisa do JingSaws (Jogos Mortais), muito menos tinha um tamanco rosa, uma bolsa rosa, e brincos rosas.

Na verdade, ela tinha todo um fenótipo de uma pessoa normal, tentando ser gentil com outra, apenas. O problema é que eu estava puto da vida, e agora com mais um motivo; aquela garota estava puxando assunto comigo e eu, pelo meu estado de ódio contra o escroto do motorista, agora estava perdendo a oportunidade de meses de sexo gratuito e, provavelmente, sem nenhum tipo de envolvimento - o sonho de todo homem solteiro não apaixonado.

Quando esse pensamento me passa pela cabeça, rapidamente eu tomo consciência do que estou perdendo... Olho para o lado, ela também me olha. Claro que depois da minha rispidez, ela já não está mais tentando puxar assunto nenhum... "Rápido" - Penso - "Fala alguma coisa..."

- Tá um calor, né?

Gente que não tem assunto sempre fala do clima. Essa é uma estupidez terrível, por que a resposta da outra pessoa só pode ser 'é', ou 'não'. Que tipo de conversa se desenrolaria a partir dessa resposta monossílaba?

- É. - Ela responde.

Ficamos mais alguns segundos em silêncio... Eu tentando desesperadamente falar algo interessante, quando me vem a idéia: "Vou me desculpar pela rispidez com que a tratei, e recomeçar tudo do início."

- Sabe... - Começo a falar.

Quando olho para o lado, a garota se levanta, e corre para a frente do ponto, fazendo sinal para o motorista da lotação que ela esperava - que, é lógico, não servia para mim -, e sumindo dentro daquele carro imenso.

"Tudo culpa daquele motorista filho da puta!"

Penso, e torno a ficar puto da vida.



Viram? Eu vomito as palavras, vocês criam o mundo.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

A festa do Diabo.

Sábado a tarde. A porta da casa da namorada – ou ex namorada? – acaba de se fechar, fazendo imenso barulho. Sua ultima memória é a de estar no sofá, ela falava algo que seus ouvidos não captavam, e ele tinha os olhos vidrados no televisor. Ah, o televisor! Um Palmeiras e Corinthians passava diante daqueles apaixonados olhos, naquelas indescritíveis quarenta e duas polegadas de plasma. Não só atiçavam aos olhos, vale a ressalva. Todo um sistema de som angulava tudo para que eu estivesse completamente embebido na partida. Resultado? Tudo o que uma mulher mais detesta: Não ser o centro das atenções.
Pra o homem, tudo o que ele fez foi colocar o seu amor à prova. Tudo bem que o foco não era exatamente ela, mas o seu amor estava ali. Todas as suas células tinham o único objetivo de sentir cada movimento, cada respiração, cada grito, cada gol! GOOOL! Recorda-se de ter berrado desesperadamente, pulando, beijando-a apaixonadamente, dizendo-lhe que a amava e... Ela estava chorando. “Meu Deus, por quê?”. Essa pergunta martelou-lhe o juízo por algumas horas a fio. Irrespondível pergunta. Resultado? Gritos, insultos, acusações de insensibilidade, lagrimas, lagrimas, lagrimas... Incontáveis lágrimas.
- Você está nervosa, ta “naqueles dias”? – Pergunta inocentemente, buscando uma resposta para aquela barbárie instalada.
Pronto. De repente, ativa-se alguma espécie de código que faz com que as mulheres percam qualquer lucidez que ainda se faça num momento de cólera. Parece que, por algum motivo, as mulheres defendem veementemente o direito de ficarem nervosas, sem culpar o seu ciclo menstrual. Pronto... A porta bate às suas costas. Ele vai, de cabeça fervente, andando pela rua, quando o celular toca. Se ele tivesse apenas uma chance de prever o porvir, teria atirado o maldito fone embaixo do primeiro ônibus que passasse. Atende à maldita ligação:
- Fala Pedrosa.
- E ai, meu ‘brother’. Planos para hoje?
- Rapaz, acabei de sair da casa da figura aqui...
E ai, se segue o diálogo em que se explica todo o ocorrido e, o mais importante, em que há a ação do Satanás na vida de qualquer homem recém saído de uma briga em casal; o convite a uma festa. Que fique claro que eu não desejo, de forma alguma, dar razão a qualquer fato que se suceda. O que aqui descrevo, são apenas fatos, como vocês hão de concordar.
O diabo da festa se faz. O homem, completamente desentendido, conversa com o amigo, afim de que, juntos, eles possam analisar e compreender a atitude tomada pela mulher, horas antes. Ainda abalado, ele, na frustração de não encontrar compreensão – visto que, em sua mente, ele nada fez, a não ser assistir a um inocente jogo na casa da namorada -, começa a bebericar uma mistura alcoólica, levemente adocicada e de fácil degustação. Uma dose segue outra, que traz mais uma, e outra, e em questão de poucas horas, o rapaz está completamente embriagado. Neste exato momento, mas uma ação demoníaca, sua música favorita começa a tocar. É uma música alegre, dos tempos em que ele era solteiro e... Ele começa a recordar-se de tais tempos. A briga começa levemente a adormecer em seu cérebro, e aquela sensação nostálgica levanta-o da cadeira.
E ele começa, ainda que timidamente, a ensaiar alguns passos. “Pra-la-pra-ca”. O álcool vai destruindo a timidez e... Em muito pouco tempo ele está no meio da pista de dança se divertindo como há muito tempo não se divertia.
Então o inevitável acontece. Em mais uma ação, o Diabo coloca na frente do rapaz aquela moça linda, solteira, enlouquecida – provavelmente pelo uso de alguma substancia psicoativa – e os seus olhos se encontram. Ele, bêbado e magoado. Ela, louca e solteira. Pronto. Nem duas palavras se trocam antes que seja impossível a identificação de quaisquer daqueles seres. Suas bocas se tocam desesperadamente, alucinadamente, como se fosse um asmático em busca do último sopro de ar. Beijam-se por mais alguns segundos, antes que ele acorde numa cama, completamente nu, e sem memórias aparentes sobre os últimos acontecimentos.
Repentinamente, algo se move do seu lado. O susto pela presença só é vencido pelo assombro pela recordação, que volta vagarosamente. Ele olha em volta, na tentativa de reconhecer o local em que se encontra. Era o seu quarto. De um salto, ele levanta-se já alcançando o jeans e vestindo-o enquanto busca a camisa. Em questões de segundos, ele está completamente vestido e acordando a moça. Fala-lhe que cometera um erro terrível, que, caso ela ainda não soubesse, ele tinha uma namorada, etc, etc... Sua acompanhante demora-se a entender, mas... Dá de ombros a tudo, veste-se e vai embora. Ele nunca mais a veria novamente. Precisava agora ligar para o amigo, para que juntos pudessem pensar em algo para encobrir a traição. Encontra-se com o comparsa, lamenta-se da besteira, fala que está arrependido - nota: a maioria dos homens se arrepende, sim. Na primeira vez, pelo menos. -, e que vai em busca da amada. contá-la a verdade, dizer que foi um erro...
- Não faça isso jamais! – Os olhos esbugalham-se desesperados tentando dissuadir o imbecil de cometer o maior erro de sua vida, em tese.
E ai segue a falácia do amigo, demonstrando por provas e mais provas que uma mulher jamais aceita ser trocada, que contar a verdade só a magoaria, e bla, bla, bla... Consegue, enfim, depois de muito falar, tirar a idéia absurda da cabeça do amigo. Mesmo assim, adverte-lhe a ir em busca da namorada, afim de sondá-la. Perceber o terreno, ver se ela descobriu e; se sim, negar a todo custo, se não, levariam o segredo ao túmulo!
Chega ao seu destino. Chama-a à porta, adentra o recinto e a percebe ainda mal humorada. “Deve ser ainda pela briga de ontem”, pensa inocentemente. E ai, resolve partir para o perdão pela tal briga de ontem. Pede perdão, diz que sente muito, que ele é um insensível mesmo... tudo o que sempre funciona com as mulheres, mas ela está estranhamente calma.
- Você saiu ontem? – Pergunta a namorada.
Fudeu. É o primeiro pensamento do cara, que gagueja, sua, treme, olha pro teto, pra janela, levanta, abre a janela, vai na cozinha, bebe água, volta, fecha a janela, senta, reclama do calor, levanta, abre a janela, e, enfim, responde-lhe que ‘foi tomar um chopinho com o Pedrosa’.
- Você ‘foi-tomar-um-chopinho-com-o-pedrosa’? Só isso?
Agora sim, fudeu. A sudorese aumenta, ele sente dor de barriga, vontade de vomitar... Até que lembra das palavras do amigo: “Negue até a morte.” E continua dizendo que sim, fora apenas tomar um chopp inocente com seu amigo.
- Ah, é? – Indaga-lhe ameaçadora. – E o que significa isso aqui?
Só o demônio sabe de onde ela tirara uma foto “Polaroid” que algum desocupado tirara na festa. Era ele no famoso flagrante, deliciando-se nos lábios da colega de horas atrás. Ele fica uns dez a doze minutos olhando a foto, quando ela profere as ultimas palavras, que agora ele já não escuta, por diferentes motivos. Ele refaz todos os rostos possíveis de se refazer na festa e ainda não crê no que vê.
- Ela é prima de uma amiga da vizinha do cabeleireiro da minha prima, que, por acaso, estava na festa.
E, novamente, ouve-se o som da porta batendo no fundo.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Agradeço

Por sorrisos e congratulaçoes, hei sempre de agradecer. Mas não é um agradecimento apático, ausente de sentido, presente de obrigações. Não é um agradecimento retórico, mesmo que seja retórico o abraço e igualmente o seja o sorriso. Não é um agradecimento que julga quaisquer intenções... É apenas uma maneira de dizer que felicito-me em receber palavras cuspidas, sejam estas originais ou recriadas. Sejam elas tortas ou felizes... Sejam elas mortas ou sejam elas carregadas de toda a vivacidade que se é possivel carregar.

Por criticas e ausencias, tambem hei de agradecer. Seja por impossibilidade ou por falta de querer. Seja por distancia ou por mera ausencia mesmo... Sintam-se livres de quaisquer culpa, pois jamais fecharei minha mente a ponto de criticar-vos ou de ser-vos ausente. Tenham a crença de que compreendo que a presença não se faz por mera aparição fisica, estamos muito além desta falta de espiritualidade, desta presença de torpor... Não existe, da minha parte, nenhuma obrigatoriedade, seja consciente ou inconsciente de qualquer presença. Percebam: Obrigadoriedade difere de vontade.

Sejam aplausos ou vaias, seram ouvidos e compreendidos. Seja a critica ou a ausencia, será dolorida, mas ouvida e internalizada. Sintam-se a vontade para sorrir ou escarrar, para alisar ou estapear, para estar ou nao estar... Sintam-se a vontade para amar ou detestar, para sorrir ou para calar, para vir ou para ficar.


Mas recordem-se; aqui estou e aqui sempre estarei.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Berros de sentimentos

Sessão nostalgia.

Como sorrir?

De que motivos fúteis preciso para enganar essa lágrima que teima em querer rasgar-me?

Por que caminhos estreitos terei que caminhar para esquecer essa solidão que teima em me doer, que teima em me tomar?

Por onde, dentro de minha mente, terei de ir para conseguir enfim me esconder desse vazio, dessas risadas falhas que eu ainda estampo, desses sentimentos que beiram o amargo de tão medíocres?

Infelizmente eu não consigo me enxergar dentro desse padrão frio, pois eu ainda creio na existência dos sentimentos, muito embora eles não tenham me ajudado tanto por esses tempos.

Não consigo me adaptar a esses tempos em que beiram as relações cegas, que não conseguem se mostrar, não conseguem se entrelaçar como se amar fosse algum motivo para se fugir. Gostaria de entender o porquê de ninguém conseguir firmar-se ao meu lado, pois me parece que está tudo torto. É como se o mundo estivesse virando de cabeça pra baixo, e eu ainda esteja teimando em caminhar na direção contraria só que ninguém me entende – e todos esperam que eu volte a caminhar na direção deles.

Gostaria de acertar o caminho para fugir desse sistema sufocante, para que eu possa enfim poder correr atrás da minha felicidade, e fugindo dessa fumaça que teima em querer me cegar, dessa sede por lucros desumanos, dessa selva que eu sou obrigado a suportar – pois neste mundo não se come quem tem fome, não se dá abrigo a quem tem frio, muito menos ouvidos aos que ainda teimam em tentar berrar o erro deste mundo.

Mas como correr atrás de uma felicidade que eu sou impossibilitado de enxergar, pois não sou completamente entendido nas minhas falas dando-lhes um ar de devaneio? Como esperar que as coisas enfim se acertem, se nem quando tenho certeza de que tudo dará certo, a calmaria se vai e uma nova tempestade se instala?

Que monstro é esse que me causei por conta de tantas quedas?

Quantas feridas, nas quais joguei sal e também engoli as lágrimas de dor, terei ainda mais de suportar até que meu caminho seja aberto à liberdade?

Ardo. Mas ardo por que não consigo me convencer que estou errado. Ardo por que não importa quantos planos eu faça, todos se perdem num grande incêndio. Ardo, mas esse ardor, como sempre, vai ser esquecido com muitos e muitos sorrisos tão falsos quanto esse vazio a que me lancei. Ardo por que não posso lutar para mudar, pois sou covarde demais para fugir e corajoso demais para ficar. Ardo, mas este ardor há de passar, essa lágrima há de secar e o meu sorriso – falso, mas sorriso – voltará a estampar meu rosto.

domingo, 9 de novembro de 2008

Enquanto isso...

A estrada passa, enquanto me mantenho calado. Centenas de milhares de pensamentos me ocorrem, a maioria em resposta a algum estímulo, seja visual, olfativo, auditivo ou – e principalmente – táteis. Em ônibus cheio, é preciso ficar atento aos contatos físicos. Há centenas de perversões nesse mundo, sendo sua maioria sexual. Essas perversões demandam atitudes, sejam elas sub, in ou conscientes. Pense na probabilidade: milhões de perversões num ônibus com, vejamos, cinqüenta pessoas. Uma entre duas pessoas tem alguma perversão. Dessas pessoas pervertidas, digamos que, sei lá, noventa porcento sofrem de perversões sexuais. Às vezes é bom ficar na defensiva e tal... Vai saber.

Sei que, quase em todas as minhas viagens de ôn
ibus, eu fico calado, olhando a rua, e esperando que algum estímulo comece a fuzilar meus neurônios. Funciona como uma injeção de gasolina num motor: O estímulo toca o neurônio que já passa a descarga pro próximo, que passa adiante que... Quando vai ver, eu já pensei duas mil coisas sobre uma besteira qualquer... E ai, a viagem fica menos monótona, e eu fico menos entediado.

Bom... Vim o tempo todo num caminho atípico hoje. Nada demais acontecia na rua. O ônibus, não estava cheio, para que as perversões alheias me deixassem ligado. Olhava pra dentro do veículo, morto, arejado, calado... Recordo-me de uns doze bocejos... Só o ranger das ferragens, que denunciava a precariedade da minha carruagem, e uma buzina ou outra na rua. Os olhos já estavam no meio caminho para fecharem-se em sono, quando duas amigas sentam-se, uma ao meu lado, e outra à minha frente. Nada diziam, apenas sentaram-se. Falaram duas ou três coisas, que eu não me recordo – talvez devido ao sono – quando uma fala de uma das garotas me chama atenção:

- Amiga... Eu acho que tenho certeza.

“Eu-acho-que-tenho-certeza.”. Ponto. Passei as ultimas horas pensando incessantemente nessa colocação. Que tipo de enredo faria com que essa colocação, a primeira vista completamente livre de nexo, fazer algum sentido? Em primeiro lugar, saliento que minha mente é extremamente fértil, e divaga facilmente por diversos caminhos...

Imaginei:

Estavam na praia, por sugestão de seus trajes. Uma das duas está desconfiada que a outra esta dividindo consigo seu marido, o que explicaria o silêncio entre as duas. A amante, confidente fiel, ouve diariamente as críticas da amiga em relação ao famigerado esposo. E é ai que entra sua perversão; ela sente-se fatalmente atraída ao rapaz, devido à descrição diária da amiga às suas canalhices. Todos os dias, a noite, a amante sonha com a indiferença do rapaz, que praticamente nunca te olhou.

Mulher traída sente o cheiro da traição... E poucos dias depois, a amiga começa a se queixar com a traíra da sua desconfiança ‘cornal’. A amiga, sempre tentando esquivar-se da conversa, se utiliza do fiel suporte da traição: a mentira.
E cada vez mente mais... Diz que acha que viu o marido dela com outra, que acha que era o carro dele naquele motel... Mas o rapaz sofre de uma acefalia que é inerente ao sexo masculino, e começa a dar pistas da secreta namorada à esposa traída. E o cerco vai se fechando em torno da traidora...

É exatamente ai que se dá a bagaceira. Presa entre a paixão do cafajeste e a amizade da corna, a mulher inventa a historia que vai culminar na frase que começou esse pensamento todo...
A traidora encontra uma inimiga – toda mulher tem uma mortal – da pobre criatura. E é ai que ela vê a ‘curva-pra-tirar-o-cu-da-reta’. E inicia, na praia, a conversa:
- Amiga... Preciso te contar uma coisa... – Começa a farsante.

A corna só olha pra cara da outra com uma cara de ‘ai-meu-deus-do-ceu’, puxa a cadeira e senta. O garçom esta passando pelo lado dela quando ela dispara:

- Moço, que cachaça tem aí?
- Bom tem ‘cincoenta-e-um’, tem rum, tem...
- Traz uma dose dupla da mais forte...

E virando-se para a traidora, tira os óculos, abre o sombreiro, se abana com o panfleto do ‘Brisa’ que ela pegou no buzú...

- Sim amiga, eu...
- Calma! – praticamente berra neste momento.

O garçom volta com a dose dupla de um negócio que mais parece ácido sulfúrico e coloca a frente da corna.

- Ta ai, dona... Eu nem sei o nome disso, mas o cozinheiro disse que é bem forte, então...
O rapaz nem acabou de falar, e a dose já sumiu, goela abaixo da criatura.
- Traz outra? – fala a corna, se dirigindo à amiga
- Traz outra. – Responde a amiga ao garçom.

E desatina a falar que ela ACHA que o Joanílson ta saindo com a Juciclene, que ela ACHA que viu os dois saindo do Scala ontem, que ela ACHA isso, ACHA aquilo..
E ai, pronto... a figura desatina a chorar... E ai, a outra dose dupla de acido sulfúrico chega. O garçom, vendo o estado da criatura, hesita em colocar a bebida na mesa, mas a mulher furta-lhe o copo e, em um segundo, a bebida já não existe mais...

E assim se segue o papo... Regado a cachaça forte e achismos inventados.
A traidora já esta com a consciência muito pesada, e a corna muito bêbada, quando é decidida a hora de partir. Um banho de mar, uma coca-cola, uma pititinga e dois acarajés curam parcialmente a bebedeira da figura que agora se dirige ao ponto, ainda sob soluços...
A amiga traíra está com a consciência muito pesada, e vai, inconscientemente desmentindo a historia... Diz que pode ter confundido, que provavelmente não era o Joanílson, que acha até que viu a Juciclene na rua naquele dia...

- Amiga – diz entre soluços a corna – você tem que ter certeza disso... é uma coisa muito séria!
A desgraçada, com medo de ser descoberta vai numa batalha mental durante a viagem quando, em certo momento, larga pra amiga:

- Amiga... EU ACHO QUE TENHO CERTEZA.


Meu ponto chegou, um cara tropeçou na rua, dois ‘baleiros’ discutiam uma coisa qualquer, passou um bambi que ficou me olhando, e eu esqueci parcialmente das minhas duas criações.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Eu e o pranto

Quatro horas da manhã. Ando meio torto pela rua. Os risos dados há pouco são abafados por esse rosto agora molhado. As pernas são levadas pela embriaguez. A boca, antes inquieta, agora se cala. O queixo tremula, o peito soluça. Os joelhos tombam ao chão. Agora, as mãos vão de encontro ao rosto. Sinto vontade de correr, de suar, de morrer... Um grito é abafado. Agora, sentado em cima das canelas, sinto as lágrimas encharcarem-me o rosto.

A cabeça tem vida própria, e balança compulsivamente para os lados. Nem eu entendo as razões do pranto. Nem ele me entende. Somos dois: Eu e o pranto. E ele me comanda. Travamos uma guerra eterna... Minha consolação, é que em minutos ele se torna fraco, e eu consigo sobrepor-me, levantar-me e ir embora...


E o sorriso vem fácil. E assim tão fáceis são os abraços. E os suspiros, as lágrimas, os tremeliques, ficam na memória, dando força ao pranto que novamente vira vitorioso.

E espero isso impacientemente. Pois é a derrota que me fortalece.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Maldizer ou bendizer?

A vida tem umas coisas engraçadas. Digo engraçadas, pra não dizer completamente estranhas. Estava voltando do trabalho hoje e, durante a longa estrada percorrida pelo ônibus, eu me peguei pensando na ‘menstruação’. Existe algo mais estupidamente inútil do que a menstruação? Quero dizer... A única utilidade desta porcaria mensal é a de aliviar casais que não desejam ter filhos. Fora isso, essa sanguinolência toda só presta pra atrapalhar no ‘rala-e-rola’, pra não deixar sua mulher ir à praia no seu único fim de semana de folga no mês – por que parece que esta coisa bela (a censura me impede de colocar o real pensamento aqui) escolhe os piores momentos pra chegar -, ou para envergonhar as menininhas na pré-adolescencia, momento mais inoportuno que é escolhido para que comece esse ciclo nada importante na vida da mulher. E nessa introspecção, me veio o diálogo:

- Amor... – diz a mulher – Minha menstruação está atrasada...
- Coméquié? – Responde o rapaz, já engasgando com a água/suco/cerveja/saliva.
- É... Era pra ter chegado dia 3...
- Ufa... Quer me matar do coração? Hoje ainda é dia cinco e...
- ... Do mês passado.

Depois dos cinco, seis ou sete minutos de digestão mental, o rapaz pega um lápis e papel e começa a escrever, escrever e escrever.
A mulher, que já está apreensiva esperando um bilhete de abandono ou suicídio, fica num vai-vem desesperador, de longe tentando pescar a reação do namorado/marido/noivo/peguete...

- Puta que pariu, que porra de leite caro é esse?
Ela vai à cozinha, bebe uma água e volta.

- Mas pra que esse guri precisa de tanta fralda?!

Agora, o papel e o lápis já foram trocados por uma caneta e uma calculadora cientifica – que só Deus sabe de onde foi que ele tirou...
E nisso é um tal de ‘ai-meu-deus-do-ceu’ misturado com ‘mas que-diabéisso’ e tantas outras frases monossílabas e indecifráveis. A mulher, já está sentada no sofá vendo a novela e fazendo a unha, só um pouco preocupada com o pensamento do rapaz

- PUTA QUE PARIU. Escola pra que? Ele vai detestar aquilo mesmo! Eu ensino ele aqui em casa... Escola só serve pra...

E é ai que entra o poder aliviativo da menstruação: Enquanto se encontra nesse acesso de cólera contra o sistema educacional brasileiro, o rapaz percebe que a mulher corre pro banheiro. Neste momento, uma gota de esperança nasce no âmago do seu ser e ele cruza tudo o que é possível se cruzar em seu corpo, reza pra todos os santos que ele conhece – e ainda inventa uns três pelo caminho -, com um único objetivo em sua cabeça.

Neste momento, seu time pode estar ganhando o campeonato, seu melhor amigo pode estar doente, você pode estar a dois números de ganhar na mega sena acumulada, aquela loira gostosa do 702 pode bater na sua porta completamente nua e com desejos pecaminosos em mente... Nada disso tem valor. Você esquece religião, cor, raça, numero do CPF e sai rezando pra tudo que é orixá, santo, exu, o diabo a quatro, para que a bendita menstruação tenha chegado.
E só quem já passou por isso é capaz de descrever a sensação que é escutar da boca da mulher, saindo do banheiro com o absorvente ‘com abas’ na mão:
- Chegou.

Ai pronto... Um réveillon de fogos de artifícios estoura dentro de seu corpo. Mas não é um réveillon qualquer não... É aquele de Milão, Paris, ou seja, lá que capital monstruosamente rica é capaz de proporcionar. O alívio é tão grande, que o rapaz vai passar uns três dias rindo a toa. E é ai que se escuta da boca de um cidadão desses:

- Bendita menstruação!!

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Lei de murphy

- Psiu... Entra em silêncio, que “a coroa” ta dormindo.

Abre a porta com o cuidado de um policial anti-explosivo que examina uma bolsa deixada na calçada. Tira os sapatos antes e se desespera ao constatar que a acompanhante adentrara o recinto de salto alto.

- Tira isso, pelo amor de Deus... – Sussurra com cara de ódio.

O salto fazia mais barulho que um rojão de doze tiros. Eles ficam um tempo parados, pra deixar que o sono tome conta da velha de novo, e começam a entrar na sala completamente escura. Não se podia acender a luz, obviamente, pra manter em sigilo o que iria acontecer ali, em breve.

- Aiiiiiii, satanás! – Canelada na mesa de centro.
- (Risos abafados).
- Fica quieta!! – Sussurra o rapaz.

Quando eles já estão quase atingindo o esperado objetivo – o quarto do rapaz -, a garota diz:

- Preciso ir ao banheiro...
- Não acredito! Por que você não disse isso antes?
- Desculpa, só deu a vontade agora e...
- Ta, ta... Vamos voltar, e você vai no banheiro dos fundos. Não faz barulho, pelo amor de Deus...

No caminho pro banheiro, mais uma canelada na mesa de centro. Ela fica uma eternidade dentro do banheiro e, depois de finalizado seu trabalho, o barulho enlouquecedor da descarga. Ele fica desesperado, corre pra fechar a porta da cozinha e se bate numa cadeira, que derruba um “secador de pratos” cheio de talheres. O tilintar dos metais no chão desesperam o rapaz que se joga no chão a fim de abafar o barulho que já tinha se calado. Ele fica uns cinco minutos deitado, com a mão na cabeça, só esperando a mãe entrar com uma FAL na mão dando tiro pra tudo que é lado.

Vão voltando na ponta dos pés em direção ao quarto. Na passagem da sala, adivinha? Mais um encontro desesperador entre a canela e a maldita mesa de centro. “Dá pra acreditar nisso?”, ele pensa revoltado, olhando pra cara da menina. Ela, mais uma vez, coloca a mão, o vestido, uma almofada - que só Deus sabe onde ela encontrou - na boca pra abafar o riso. Ele coloca o indicador na frente da boca, pra sinalizar um silêncio pra ela. Quando chegam na porta do quarto dele, que é totalmente vulnerável à visão da mãe, caso esta levante, ele fala pra ela:

- Vou abrir a porta, e você entra rápido, viu?
- Mas é melhor você abrir devagar, não lembra que sua porta ta emperrada?
- Como é que você sabe disso?
- Naquele dia que eu vim aqui você...
- Você já... Esquece, anda logo antes que minha mãe acorde.

Abre a porta e eles entram no quarto. Uma paixão em fúria toma conta dos dois que, envoltos em um beijo interminável vão tateando o caminho até a cama. Nesse meio tempo é copo quebrado, derrubam uns porta-retratos, fazem um barulho terrível.

- Psiuu... Pára, pára. Calma, a gente não pode fazer tanto barulho assim!
- Cala a boca e vem logo.

E até a cama conspira contra os dois. É um tal de “nheque, nheque”, “toc, toc” (na parede), “ai minha cabeça” (na cabeceira) até que acaba tudo bem. Agora, é a maratona de volta até a saída.

- Se eu bater a canela naquela mesa de centro de novo, eu vou jogar ela pela janela.

A menina tem que se controlar desesperadamente para não explodir em riso. Vão voltando com o mesmo cuidado da entrada. Agora mais relaxados, com a pupila adaptada ao escuro, o que ajuda na missão. Ele faz de tudo pra evitar a mesa de centro. Faz tanto que nem se liga na outra mesa, a de jantar e... Esbarra com tudo nela. Pra terminar, a porta do quarto – que ele esqueceu aberta, claro – bate com o vento.

- Quem está ai? – ouve-se do quarto da mãe.
- Sou eu – responde o rapaz empurrando a moça para a porta.
- Você esta sozinho?
- Claro. – a coloca do lado de fora, da um beijinho, e faz sinal de que “liga amanhã”. Fecha a porta.
- E que calcinha é essa aqui no corredor?

Como é que isso foi parar ai, pelo amor de Deus?
Ele finge que não ouve e vai dormir. Amanhã, de cabeça fria, ele inventa uma mentira qualquer.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Ai, que tédio.




Sexta-feira a noite. Estou sozinho. Meu apartamento tem um aspecto macabro. Olho para os sofás, vazios. A televisão está falando e mostrando algo para ninguém. O computador está ligado, a minha frente, mas eu não faço a mínima idéia do que se passa na tela. Meu pensamento tem nome e direção certa. Tem uma vontade não saciada, uma voz doce – que até o momento está em silêncio, talvez se mostrando chateada – e uns lindos olhos, do azul mais suave que possa existir.


A semana anterior foi terrível para o meu psicológico. Brigas, cobranças, promessas não cumpridas e o adiamento de um encontro a muito esperado – e igualmente adiado, por mil motivos. Passar a sexta-feira sozinho era realmente deprimente. Abri a carteira e constatei uns trocados. Bom... Pra encurtar a história, eu fui beber, sozinho, numa barraca q fica aqui ao lado do meu prédio.


Desci descalço mesmo, com a camisa do Corinthians no ombro e alcancei meu destino. Sentei-me à mesa improvisada e pedi a desejada Brahma. Meio quente, devo admitir, mas eu já estava “na merda” então ficou por isso mesmo. O dono do bar, que eu apelidei carinhosamente de “coroa”, vem com um “tira-gosto” – uma carne de terrível aspecto – e me oferece. Caí na besteira de dizer que sou vegetariano. Com tanta desculpa no mundo, que não iriam suscitar a conversa q eu não queria ter, eu invento de dizer a verdade. “Mas que inferno”, penso ao pronunciar a última sílaba do nome:


- Você não come carne? Por quê?


“E te interessa o por quê?” Pensei.


- Por que eu não gosto.


Ele parece entender que eu não queria papo e se retira com o prato.


Peço um cigarro ao “Coroa”. Acendo, trago e a sensação de prazer é tão boa, que eu levo minha palma direita à testa. Apoio o cotovelo na mesa, e fecho os olhos por alguns segundos.


- Dia difícil?


Ah, era só o que faltava. Bebum puxando assunto comigo.


- É. – Respondo.


E ai ele desatina a falar. O máximo que eu fazia era dar um sorriso – mais falso impossível -, “fazer que sim” com a cabeça e olhar as horas. Na quinta vez que eu pego o relógio, ele me pergunta se estou com pressa.


- Estou sim. Na verdade, só vim tomar essa mesmo e já estou...


- Sabe que ainda ontem eu estava... Bla, bla, bla.


Sim, ele me interrompeu, e voltou a falar feito um doido. Passou mais uns dez minutos falando palavras inaudíveis.


- Deixa o menino em paz, Edinho. Olha você me desculpa, mas é que ele é doido assim mesmo...


Pensei em ser educado, e dizer que não me incomodava, mas... Vai que ele acredita? Sorri para o outro rapaz e agradeci. O bebum saiu com o amigo, e os olhos azuis voltaram à minha cabeça. A cerveja estava quente feito o diabo, e eu resolvi me embriagar logo.


- O que você tem de “quente” ai?


- Tem conha...


- Coloca um duplo.


Quatro doses de conhaque se seguiram. Resultado? Fiquei embriagado, deprimido e solitário. A imagem do azul dos olhos da minha “pedra preciosa” não me saia mais da cabeça.


Fui pra casa, errei o andar no elevador, demorei meia hora tentando abrir uma porta que não era a minha, mais meia hora pra perceber isso e descer. Entrei no chuveiro de bermuda, esqueci de pegar a toalha e, correndo, bêbado em busca dela, eu tomo a maior queda no meio da sala.


“Depois dessa, só me resta dormir.”. E deitei na “montanha-russa” que se chama "cama de bêbado".

Meu eu fala pro teu.


Ame. Deleite-se com o prazer de poder amar.
Esqueça o pragmatismo que se tornou a vida
Sente-se à pedra, e sinta o cheiro do mar,
Tire da cabeça a idéia de viver pré-concebida
Liberte-se desta vida doente, presa, petrificada
Abra sua mente, pra sempre ter o que falar.

Pare pra pensar no que é errado no dia-a-dia,
Sem simplesmente ouvir e repetir o que lhe é dito.
Que é errado isso, certo aquilo e que isso é feio ou aquilo é bonito...
Tenha sua verdade fundamentada em sua, e por sua consciência,
Afirme sua verdade pra dentro do seu peito
E não a deixe escapar por fraqueza ou por incompetência.

Não desmereça o sofrimento de ninguém para sua alegria.
Ninguém deve passar fome para que você possa se sentar à mesa.
Jamais se justificará a imensa covardia
Que é usar o mais fraco como uma fraca presa.
Não se usa o sangue de ninguém como moradia,
Muito menos suas lágrimas e gritos de medo como defesa.

Desarme-se.
Abrace.
Chore.
Acalente.
Perdoe, enfim.

Mas não esqueça jamais.
Para que o seu esquecimento não tire, dos outros, a paz.

sábado, 12 de abril de 2008

Viva direito, ame direito.


Eu acho que a vida é sua propria assassina. Me incomoda muito a raridade das coisas. Eu e minha mãe, por exemplo, conversamos todos os dias. Nestas conversas, ela deixa sempre bem claro o seu pragmatismo em relação a mim. Pergunta se marquei o dentista, se fui ao curso semana passada - o qual eu não posso faltar, por que foi carérrimo - , mas raramente quer saber de mim. Apenas cito minha mãe por ela estar presente no exemplo diariamente. Mas isso acontece todos os dias, com as mais diversas pessoas. Inclusive com você. E alguns poetizam a vida. Talvez buscando suberfugiar o fato mórbido cronotativo regressivo que é o viver.


As pessoas vivem no "automático". A robustez, a complexidade da escolha já é vetada ao ser assim que este passa a respirar destes ares. Assim que nascemos, em qualquer lugar do mundo, um carimbo vermelho nos é marcado na testa: CAPITALISTA. Assim, sem te consultar. Sem pedir a sua opinião mesmo. Ninguém escolhe isso. E para que isso não seja jamais questionado, a primeira coisa que lhe é tirada quando você está em formação é a sua consciencia. E para isso, diversas armas estão a disposição dos capitalistas conservadores. Programas de televisão, músicas de baixíssimo teor intelectual, marcas, carros, trabalhos, estudos... aos poucos você nem percebe a sua falta de opção e vai ser mais um no meio de todos.

Pois bem... Não nos prendamos ao fator "capitalismo". Nossas vestimentas, nossos entretenimentos e até nossa alimentação já não nascem de um caráter opinativo individual de uns anos pra cá.
As relações interpessoais também recebem esta marca forte do capitalismo. Aprendemos, desde pequenos, a não nos relacionarmos com "pessoas que não levam a lugar nenhum". O engraçado é que as pessoas mais interessantes que eu conheço jamais me levaram a lugar algum. Me deixaram livre, para que eu pudesse escolher aonde ir, como e por que ir. Deixaram livre todos os caminhos, para que eu tomasse o rumo que decidisse.


Os pais perderam a noção dos valores que devem ser passados nas "mesas de almoço", que estão igualmente se extinguindo, vale ressaltar. As conversas estão mudas, reduzidas aos cansaços, às dores de cabeça, às brigas dos pais...
Estamos fadados a seguir o sistema, inclusive na nossa forma de sentir. As ruas estão cinzas e pobres. Os pobres vivem nas ruas. A bela natureza está sendo morta, trocada pelo luxo dos apartamentos, cada vez mais aprisionanates. Todo eu é questionado e forçado a não mais sê-lo. E cada dia menos temos o diferencial em nossas mãos. Nem as ataduras são mais responsáveis pela prisão, estamos decepados, surdos, cegos e caminhando para uma vida cada vez mais triste. E assim, a vida mata a vida todos os dias.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Aula, maldita aula.


Estou aqui sentado há umas duas horas, mais ou menos. Até agora não entendi uma só palavra do que foi dito nesta sala. Minúscula, vale ressaltar. Um claustrofóbico entraria em pânico com a minha descrição deste local. Não que eu tenha lá um grande dom de descrever. Mas é que o negócio é complicado aqui mesmo.

A aula se tornou tão incompreensível, que tem uns vinte minutos do filme “o auto da compadecida” passando em minha cabeça. As pessoas ao meu redor me olham incrédulas, tentando perceber qual é a graça no “estudo das ideologias e filosofia da linguagem”. As moças ao meu lado já releram o texto de Bakhtin umas três vezes, buscando o teor hilário do autor.

O pior de tudo é que eu estou me sentindo um completo ignorante aqui, meio a tantos estudiosos. Digo isso por que quando corro os olhos pela sala todos, sem exceção, estão praticamente fritando suas canetas e ateando fogo aos cadernos, devido ao atrito intenso entre ambos.

Neste momento estamos em um aguardado intervalo. Tem uma garota recebendo uma massagem de outra. Ambas são belíssimas e eu estou me segurando para não picotar esta escrita e começar um conto erótico. Ih... Parece que elas tiveram acesso aos meus pensamentos pútrefos, pois a massagem cessou repentinamente.

Levanto para tomar um cafezinho – que é grátis aqui! – mas a professora, um amor de pessoa, já recomeçou a falar novamente. Eu cheguei a me flagrar rezando para que caísse a energia, que caísse um poste, que caísse o que quer que seja, mas que algo parasse esse martírio interminável.

“O auto da compadecida” já está na metade, quando eu começo a pensar: “se eu fosse um daqueles americanos loucos, eu já teria sacado uma arma e distribuído uma saraivada de balas aqui”. Imediatamente meus olhos correm pela sala. “Mas não tem câmera aqui. Não ia ter graça.”. Não se preocupem, eu mesmo fiquei estarrecido com meu próprio pensamento.

Agora a professora discute uma passagem do texto com um rapaz. Bondade minha, os poucos cabelos que lhe restam já são completamente pálidos. Rapaz que faz ressalvas durante quase todo o tempo da aula... Pronto! Agora foi que deu-se! A massagista começou a falar. Ela tem um sotaque espanhol, castelhano, sei lá. Sei que, se eu já tinha pensamentos pecaminosos em relação à coitada, agora é que a aula foi pras cucuias de vez. Eu não consigo mais parar de olhar pra massagista espanhola. Ela deve estar pensando (?) que eu sou um tarado sem vergonha.

Depois de assistir a essa aula, eu só posso chegar a duas conclusões: Ou eu desaprendi o português, ou a professora leciona em nagô. Ao final de tudo, a miserável ainda me inventa de perguntar: “Como foi que o Marxismo conseguiu ficar na história, sem o estudo da Semiótica?”

“Sei não” – Pensei – “Só sei que foi assim.”. E tive que sair da sala pra poder explodir em gargalhada.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Crônica de um intestino escroto.


Hoje eu tive um acesso de dor-de-barriga. Desses que todos, vez ou outra, tem, nos piores lugares. Penso que nosso intestino é um grande filho da mãe, no pior sentido da expressão. Estava em casa durante toda a manhã, mas o meu intestino quis esperar até às 7:40, só pra me pregar uma peça.
Cheguei a entrar e sair do banheiro umas quatro vezes. O local era o típico mictório de faculdade: extremamente entupido. Usava o subterfúgio narcisista do espelho. Fingia estar dando um jeito na barba, inventava um fio desarrumado no cabelo... A cena era hilária: um perfeito perfeccionista de sua aparência - com embrulhos audíveis na região abdominal - de camiseta, bermuda e sandálias destas de borracha.

Fiquei na escolta da porta do banheiro por quinze minutos, que demoraram duas horas para passar, aproximadamente. A essa altura, eu ja suava horrores.
Quando o ruído da minha barriga evoluíra para um barulho quase ensurdecedor, eu resolví que era a hora exata de tentar mais uma investia rumo à privada. Neste momento, a bondosa servente, mulher trabalhadora, resolve interditar o acesso ao meu desejado objetivo. "Filha da puta!!!", pensei no momento. Resultado? Tive que esperar mais uns dois dias (cinco minutos), já visivelmente desesperado e com ódio à coitada da zeladora estampado nos olhos, para poder, enfim, descarregar os resíduos mortais que me atormentavam.

Depois de uma espera petrificante, vejo que a moça sai do banheiro masculino afim de continuar seu trabalho ao lado, no feminino. Como ela fechara ambos os banheiros, afim de realizar seu trabalho, o momento me pareceu perfeito. Pobre de mim, iludido. Esqueci que a perfeição não existe.
Adentrei o ambiente vazio. "É agora!". Sem pestanejar, sentei-me no vaso, tranquilo, deixando o local completamente fétido, diga-se de passagem, o que era completamente compreensível.

Foi aí que deu-se a bagaceira: alguma turma de algum curso acabara de ser liberada. Neste exato momento, a servente, bondosa como uma santa, desobstruiu a entrada dos sanitários. Foi uma invasão desenfreada de jovens barulhentos, enlouquecidos... e eu naquele cubículo fedorento e em total estado de pânico. Minha respiração, meus batimentos cardíacos, tudo cessou por alguns minutos menos... o barulho das malditas flatulências fedidas, as quais eu não tinha a menor condição de segurar.
E um silêncio constrangedor tomou conta do recinto, seguido de perto por uma crise de riso generalizada. Por parte deles, é claro. Da minha parte, apenas berravam os flatos, seguidos de quilos (ou litros?) de merda muito malfeita, vale ressaltar. O meu alívio só veio quando o silêncio voltou a reinar no local.

Resolvi sair rápido do maldito cubículo. Pelo menos, papel-higiênico tinha. Voei para o lado de fora, aonde pude notar que outro grupo - ou seria o mesmo? - se dirigia ao meu encontro.
E novamente lá estava eu, utilizando o espelho como desculpa, fingindo olhar as falhas da minha barba. "Dei descarga? Ah, pouco importa... eu vou pro inferno, mas nao volto lá dentro.".